Carlos Lacerda, o político do tudo ou nada

O golpismo de Carlos Lacerda está banido, felizmente, da vida pública. Mas seria bom recuperarmos sua intransigência com os vícios da República brasileira

FERNANDO SCHÜLER*
09/02/2014 13h00 – Atualizado em 09/02/2014 14h15

“Não gosto de política… gosto é do poder. Política para mim é um meio para chegar ao poder”, diz Carlos Lacerda, em Depoimento, publicado em 1978, um ano após sua morte. De fato, a paciência não era sua maior virtude. Em 1955, Juscelino Kubitschek eleito presidente da República, Lacerda defendeu a anulação das eleições. Juscelino não havia feito maioria, seu meio milhão de votos sobre Juarez Távora eram votos dos comunistas. Às favas com o jurisdicismo da ala legalista da UDN. O caso era apear Juscelino, e logo João Goulart, seu vice, do poder. Lacerda tinha pressa.

O CORVO Carlos Lacerda,  em 1963, quando era governador  da Guanabara. Ele tramou golpes para chegar ao poder, mas terminou a carreira de político como um derrotado (Foto: Folhapress)
O CORVO
Carlos Lacerda, em 1963, quando era governador da Guanabara. Ele tramou golpes para chegar ao poder, mas terminou a carreira de político como um derrotado (Foto: Folhapress)

Em abril deste ano, Lacerda faria 100 anos. Nos manuais de história, ele é o corvo da Terceira República. O apelido foi dado pelo jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Pegou. Lacerda incorporou o pássaro negro a sua propaganda. Proscrito da vida pública ainda relativamente jovem, assim prossegue. Nenhuma comissão da verdade pede o reexame de sua morte. Seu arqui-inimigo, Getúlio Vargas, chefe de um regime de exceção de década e meia, que fechou o Congresso, extinguiu os partidos, prendeu e torturou com sua polícia política, prossegue como herói da historiografia oficial.

Em parte, isso se dá pela sina incontornável da história: Lacerda foi um político derrotado. Nos 19 anos da “república populista”, andou sempre no avesso do poder. Terminou derrotado pelo regime militar – que apoiara e, depois, o baniu da vida política. Lacerda chegava à maturidade de seus 50 anos em 1964. Aspirava à Presidência, queria ser o candidato da “revolução”, nas eleições de 1965. Errou feio. De certo modo, terminou como Leonel Brizola, tolhido da chance de deixar um legado, como o fizeram Juscelino e Vargas. Brizola, longevo, ainda sobreviveu. Teve sua chance, na redemocratização. Lacerda se foi em 1977, inglório, morto de uma complicação cardíaca.

Vem daí o mérito do livro recém-lan­çado de autoria do historiador Rodrigo Lacerda, A república das abelhas. Rodrigo é um escritor premiado, doutor em história pela Universidade de São Paulo. É também neto de Carlos Lacerda. De cara, isso o livra do debate sobre o “distanciamento”. “Tentei tirar partido disso”, diz Rodrigo. E conseguiu. Rodrigo toma o avô como narrador de sua própria história e produz um livro cativante. Algo que ele chama, “por falta de definição melhor”, um “romance histórico”. Não gosto da expressão. Um livro de história sempre será uma obra de ficção. A ficção sobre o tempo que se foi e do qual recolhemos os pedaços. Rodrigo recolhe os cacos da história dos Lacerdas, desde o avô de Carlos, Sebastião, abolicionista e republicano, e estabelece seu ponto de vista.
Rodrigo conta a história do atentado da Rua Tonelero, em 1954. Daria um bom hobby colecionar versões sobre o acontecido, naquela madrugada, em Copacabana. Conheço livros de história que asseguram tudo não ter passado de uma jogada para incriminar Getúlio: a confissão do negro Gregório, o ferimento de Lacerda, tudo mentirinha. História? Talvez seja melhor ficar com o romance, mas não faz muita diferença. Rodrigo escreve um livro cuidadoso, como devem ser os livros de história. Seu maior achado foi transformar Lacerda num homem ponderado.

Na classe média carioca, com alguma informação e bastante idade, Lacerda é lembrado como governador enérgico e competente, o primeiro do então recém-criado Estado da Guanabara, na primeira metade dos anos 1960. Seu governo universalizou o acesso ao ensino primário e chegou a publicar um decreto prevendo processo para os pais que não matriculassem seus filhos na escola. Modernizou a gestão, tornou obrigatório o concurso público, investiu como nunca em saneamento básico, investiu em obras estratégicas, como a estação Guandu, os túneis Rebouças e Santa Bárbara, mandou fazer o Parque do Flamengo. Lacerda disse, no fim da vida, que sempre quis ser escritor. Foi dramaturgo, traduziu 30 obras (de Shakespeare a Tolstói) e escreveu um livro de memórias, A casa de meu avô, que lhe valeu a frase de Carlos Drummond de Andrade de que bastava o livro “para garantir-lhe esse lugar que importa mais do que os lugares convencionalmente tidos como importantes”. Mas deixou sua melhor memória como gestor público.

Sua paixão definitiva foi o jornalismo de combate, o articulismo enragé, tradição hoje desaparecida, pois nenhum governante perde o sono em função de um artigo de jornal.  Escreveu um livro apresentando sua visão sobre o jornalismo, A missão da imprensa, em que faz uma candente defesa da independência do jornalismo diante dos governos e grupos de poder, a profissionalização do jornalista, o rigor na verificação das fontes. É evidente que esse não foi o caso de seu jornal, a Tribuna da Imprensa, fundada por ele. Nem foi o caso da publicação da Carta Brandi (uma carta forjada do deputado argentino Antonio Brandi a Jango, apresentada pelo jornal como a prova de uma conspiração para implantar uma “república sindicalista” no Brasil). O Lacerda reflexivo, saído da mente de Rodrigo, “fora do jogo, lembrando o campeonato”, quem sabe teria checado se aquela assinatura era mesmo verdadeira, antes de publicar a carta. Lacerda levou a contradição entre a palavra e a vida ao estado da arte.

Jovem comunista, Lacerda virou conservador e incorporou o personagem do moralista da República. Nos anos 1930, foi comunista. Nunca foi formalmente aceito no partido, mas se tornou orador estudantil da Aliança Libertadora Nacional. Em 1935, fez a leitura do manifesto de Luís Carlos Prestes, que levaria ao fechamento da ALN. Rodrigo sugere um jovem Lacerda incomodado com a verborragia lunática de  Prestes, que entre outras coisas convocava os índios brasileiros a aderir à causa proletária. É possível. De todo modo, seu divórcio com o comunismo vem apenas no final dos anos 1930. Escreveu um artigo, “A exposição anticomunista”, segundo Lacerda com o conhecimento do partido, em que fazia crer que o PCB não tinha mais influência relevante na política brasileira. Foi expurgado. Seus amigos comunistas o largaram, sob o efeito do Artigo 13 do estatuto do Partidão, que proibia seus integrantes de falar com os inimigos do partido. Foi sua experiência pessoal com a ideia totalitária.

Da crítica ao comunismo emerge, nos anos 1940, o Lacerda conservador. Por volta de 1948, converte-se ao catolicismo, sob influência de Fulton Sheen, líder católico americano, carismático e tele-evangelista (atualmente em processo de beatificação), e de intelectuais, como Alceu Amoroso Lima. Lacerda lapida sua concepção do universo político, segundo a qual “o liberalismo só pode funcionar em uma sociedade dotada de base moral”. Base moral que, por suposto, subordina qualquer ideia de pluralismo político e social. Não é um acaso que a Tribuna da Imprensa surge, no final de 1949, com o objetivo explícito de “cristianizar a sociedade”. No ambiente da Guerra Fria, o discurso conservador encontrava uma tradução fácil: o anticomunismo, mistura de “medo real com uma espécie de indústria do pavor”, na definição de Elio Gaspari. O comunismo, hoje, é um espantalho, e o moralismo católico saiu de moda. À época, dava audiência e um bom bocado de votos. O mundo andava em transição, nos anos 1950 e 1960. A juventude lia Jack Kerouac e experimentava a liberdade sexual que a pílula oferecia, mas expressões como o “perigo vermelho” e a “destruição do nosso modo de vida”  mexiam com a cabeça das senhoras de Copacabana. Lacerda soube ser seu porta-voz.

Suas posições, naqueles anos, são bem conhecidas – e não são isentas de contradições. Em 1947, agiu como um liberal, reagindo à decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de cancelar o registro do PCB. Diferentemente dos trabalhistas e da máquina sindical atrelada ao governo, avessos à concorrência. Em 1954, foi o pivô da crise de agosto, que levou ao suicídio de Vargas. Em seguida, defendeu o adiamento das eleições, alegando a necessidade de um “estado de exceção”, um período de reforma constitucional para corrigir os males de nossa democracia. Em 1955, zarpou no Cruzador Tamandaré, com o presidente interino Carlos Luz, acossado pelos canhões do Forte de Copacabana, em oposição à posse de Juscelino. Em 1961, opôs-se à posse constitucional de Jango e, em 1964, liderou a mobilização golpista no Rio de Janeiro, com sua metralhadora INA a tiracolo, desde o Palácio Guanabara.

Sempre desconfiei dos que atribuem coerência demais à trajetória dos atores políticos. O jogo do poder frequentemente adquire uma lógica própria, há o erro, há o desvio, o exagero e, por fim, há sempre muita teoria disponível para interpretar e ajustar a realidade. O fato é que Lacerda fez do “golpismo democrático” a marca maior de sua personalidade política. Aquela que produziu o “lacerdismo”, uma arte, um pecado da política brasileira, que consiste em pôr em xeque as instituições da República quando interessa. Uma arte sem ideologia, frequentemente feita de bons argumentos. Pecado que ninguém mais, felizmente, soube cometer como Lacerda.
Quem sabe o lacerdismo tivesse um componente estético. Lacerda foi, na definição de Rodrigo, alguém com a “trágica incapacidade de aceitar o mais ou menos, na terra do mais ou menos”. O ponto é que a democracia vive, em boa medida, do mais ou menos. Do acordo, da procura pelo consenso. A vida de Lacerda foi a recusa permanente do acordo. Talvez tenha sido seu personagem: o moralista da República. Atores políticos elegem seus personagens. Juscelino escolheu ser o otimista, o democrata, o “sonhador do Brasil”; Tancredo escolheu ser a tradução discreta do bom-senso. Lacerda fez sua escolha. Nunca pareceu arrependido, mesmo na derrota.

ELOQUÊNCIA Lacerda discursa em  São Caetano do Sul, São Paulo, em 1968, durante ato da Frente Ampla,  que se opunha à ditadura militar. Seu poder de atração era sua oratória (Foto: Acervo UH/Folhapress)ELOQUÊNCIA
Lacerda discursa em São Caetano do Sul, São Paulo, em 1968, durante ato da Frente Ampla, que se opunha à ditadura militar. Seu poder de atração era sua oratória (Foto: Acervo UH/Folhapress)

Fiel seguidor do “estilo dos Lacerdas” – herdado de seu pai, Maurício, deputado na República Velha, pioneiro na defesa da legislação trabalhista –, Lacerda foi muito além. Seu poder de atração residia, essencialmente, na palavra, no talento de orador. O maior de todos, na opinião insuspeita de Almino Affonso. A autoconfiança que o fez entrar sozinho, numa madrugada de dezembro de 1961, no presídio Lemos de Brito, para controlar a rebelião de algumas centenas de detentos, episódio em que teria sido ajudado pelo preso ilustre, Gregório Fortunato. Exagero ou não, está lá, numa carta de Drummond, de 1976: “Ninguém é indiferente ao charmeur irresistível que você é; e mesmo os que dizem detestá-lo, no fundo, gostam de você. Gostam pelo avesso, mas gostam”.

A vocação de charmeur, quem sabe, fez com que conseguisse, a partir de 1966, uma improvável reaproximação com Juscelino e Jango, para a formação da Frente Ampla, em oposição ao regime militar. Também aí foi derrotado. São muitas as razões. Uma delas era a memória, ainda fresca. Mesmo que pensasse rápido, que não guardasse mágoa, era óbvia, para Lacerda, a dificuldade de ser reconhecido como um democrata pela oposição ao regime. Em 1968, logo após a decretação do AI-5, Lacerda teve seus direitos políticos cassados por dez anos.

Só com a Constituição de 1988, e após o impeachment de Fernando Collor, que a República adquiriu alguma estabilidade. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, foi criado o Ministério da Defesa, que passou a ser ocupado por um civil, e as Forças Armadas retiraram-se por completo da cena política. Logo que eleito, Fernando Henrique sugeriu que chegara o tempo de superar a era Vargas: a era do Estado empresário, do sindicalismo oficial, do empreguismo público, da cooptação política via distribuição dos cargos e favores públicos. A lista dos arcaísmos brasileiros é extensa e velha conhecida. Fernando Henrique poderia ter acrescentado que também chegara o tempo de superar a “era Lacerda”. A era do tudo ou nada, do diálogo impossível, do logro permanente das regras do jogo. Havia chegado o tempo da convergência.  Em nome desse aprendizado, haviam sido feitas a anistia, a transição pacífica para o poder civil, a nova Constituição e, finalmente, a normalização econômica do país, com o Plano Real. Nesta Quinta República, é certo que o Lacerda moderno, defensor do fim do imposto sindical, do direito das famílias à escolha educacional, e o Lacerda intelectual teriam algum papel a cumprir. O “corvo”, papel nenhum.

Rodrigo, agora, nos deve um segundo volume, contando sobre seu avô nos anos de 1954 a 1977. Quem sabe um Lacerda, já veterano, entre suas abelhas, nos conte sobre suas aventuras da maturidade. Não apenas sobre seu governo na Guanabara, sua vitória de Pirro em 1964, mas também arrisque um pouco mais. Que diga se acreditava, realmente, no moralismo udenista e se de fato errou na perseguição que promoveu a Juscelino, como teria reconhecido, num encontro da Frente Ampla. Que fale de suas amizades com os intelectuais, de John dos Passos a Erico Veríssimo, e nos confesse se, nos últimos anos, não fora se tornando mais um liberal e menos um conservador. E, de passagem, nos conte sobre o que realmente aconteceu entre ele e Shirley McLaine, naquele outono californiano de 1968.

* Fernando Schüler é doutor em filosofia, diretor do Ibmec RJ e curador do Projeto Fronteiras do Pensamento

Lacerda

Carlos Frederico Werneck de Lacerda foi um jornalista e político brasileiro. Membro da União Democrática Nacional (UDN), foi vereador , deputado federal e governador do estado da Guanabara. Fundador e proprietário do jornal Tribuna da Imprensa e criador da editora Nova Fronteira. Ganhou a alcunha de “Demolidor de Presidentes” por causa do seu forte oposicionismo: alguns o acusam de ser responsável pelo suicídio de Getúlio Vargas, Jânio Quadros renunciou por causa de sua pressão e o próprio Juscelino Kubitschek admite que se lhe tivesse dado voz na televisão ele o teria derrubado também. Nesta série de artigos, vamos conhecer a trajetória do Demolidor de Presidentes.

I. Infância e juventude
Filho de Maurício de Lacerda e Olga Caminhoá Werneck. Pela família materna, era descendente direto do barão do Ribeirão. Nasceu no Rio de Janeiro, mas foi registrado como tendo nascido em Vassouras, cidade onde seu avô residia e seu pai exercia atividades políticas. Ingressou em 1929 no curso de Ciências Jurídicas e Sociais da então Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, atual Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Durante seu período acadêmico, destacou-se como orador e participou ativamente do movimento estudantil no Centro Acadêmico Cândido de Oliveira. Devido ao grande envolvimento em atividades políticas, abandonou o curso em 1932.

A militância comunista e o antigetulismo
Tornou-se militante comunista, seguindo os passos de seu pai, Maurício de Lacerda, e do seu tio Paulo Lacerda, antigos militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Sua primeira ação contra o governo de Getúlio Vargas implantado com a revolução de 1930, deu-se em janeiro de 1931, quando planejou, junto com outros comunistas, incentivar marchas de desempregados no Rio de Janeiro e em Santos durante as quais ocorreriam ataques a lojas comerciais . A conspiração comunista foi descoberta e desbaratada pela polícia liderada por João Batista Luzardo, o que até virou notícia no jornal americano The New York Times. Em março de 1934, leu o manifesto de lançamento oficial da Aliança Nacional Libertadora (ANL) em uma solenidade no Rio de Janeiro à qual compareceram milhares de pessoas.

Quando ocorreu o fracasso da Intentona Comunista de 1935, teve que se esconder na velha chácara da família em Comércio (atual Sebastião Lacerda, Vassouras) e ser protegido pela família influente.

II. Carlos Lacerda se endireita
A violenta repressão ao movimento comunista de novembro de 1935 o levou à clandestinidade até 1938, quando foi trabalhar na revista O Observador  Econômico e Financeiro. Um artigo seu, publicado na edição de janeiro de 1939, foi considerado prejudicial ao PCB e provocou sua “expulsão” do partido, do qual, aliás, nunca fora membro.  Rompeu com o movimento comunista em 1939 dizendo considerar que tal doutrina “levaria a uma ditadura, pior do que as outras, porque muito mais organizada, e, portanto, muito mais difícil de derrubar”.

Em plena ditadura do Estado Novo, obrigado a abandonar o círculo intelectual e político da esquerda, associou então, ao antigetulismo trazido da juventude,
um forte anticomunismo. A partir de então, como político e escritor, consagrou-se como um dos maiores porta-vozes das ideologias conservadora e direitista no país, e grande adversário de Getúlio Vargas, e dos movimentos políticos Trabalhista e Comunista. De sua lavra saíram contundentes artigos contra essa ideologia e o anticomunismo tornou-se uma verdadeira obsessão, resultando em ataques constantes aos países da então “cortina de ferro” e à ideologia de esquerda.

A ascenção como jornalista e a filiação à UDN
Lacerda ganhou notoriedade como jornalista ao publicar no Correio da Manhã, em 22 de fevereiro de 1945, a entrevista com José Américo de Almeida, em que este, rompendo o bloqueio da censura à imprensa, criticava o regime ditatorial de Vargas. No mesmo jornal, lançou a coluna “Na tribuna da imprensa”, destinada a cobrir os trabalhos da Assembléia Constituinte (1946).

Seria este o trampolim de onde daria seus primeiros  saltos rumo à política. Filiado à União Democrática Nacional (UDN), foi o candidato mais votado na eleição de 1947 para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. A experiência parlamentar durou apenas um ano, já que renunciou ao mandato por discordar da Lei Orgânica do DF, que dava aos senadores, e não aos vereadores, o poder de examinar os vetos do prefeito carioca, o qual, por sua vez, era indicado pelo presidente da República. Nesta mesma época, fez campanha a favor da autonomia do Distrito Federal, defendendo a eleição do prefeito, ao invés de sua nomeação pelo presidente da República.

A Tribuna da Imprensa
Em 27 de dezembro de 1949 fundou a Tribuna da Imprensa, jornal que defendia o ideário da UDN, fazendo oposição ferrenha ao getulismo. Deste jornal iria comandar uma campanha implacável contra Getúlio Vargas, eleito em 1950 para presidir o país. Um de seus principais alvos passou a ser a Última Hora, de propriedade de Samuel Wainer, amigo dos tempos de esquerda, a quem acusava de ter obtido empréstimos favorecidos junto aos bancos oficiais para fundar um jornal governista. Foi a pedido de Wainer que o caricaturista Lan desenhou Lacerda como um corvo, símbolo de mau agouro e de morte.

Em 1953, Lacerda fundou, no Rio de Janeiro, o Clube da Lanterna, que publicava um periódico intitulado O Maquis, através do qual, juntamente com vários parlamentares udenistas, ele denunciava o que considerava as mazelas e a corrupção do governo Vargas.

Inimigo político de Getúlio Vargas, Carlos Lacerda foi o grande coordenador da oposição à campanha de Getúlio à presidência em 1950, que continuou durante todo o mandato de Vargas, até agosto de 1954. Uniu-se aos partidos oposicionistas, principalmente a UDN, num esforço conjunto para depor o presidente Vargas, através de acusações que publicava em seu jornal, Tribuna da Imprensa.

III. O Atentado da Rua Tonelero
Lacerda foi vítima de uma tentativa de assassinato na porta do prédio onde residia, em 5 de agosto de 1954, quando voltava de uma palestra no Colégio São José, no bairro da Tijuca. No atentado morreu o major da Aeronáutica Rubens Vaz, membro de um grupo de jovens oficiais que se dispuseram a acompanhá-lo e protegê-lo das ameaças que vinha sofrendo. Atingido de raspão em um dos pés, Lacerda foi socorrido e medicado em um hospital. Lá mesmo acusou os homens do Palácio do Catete como mandantes do crime.

A pressão midiática e a comoção pública com a morte do major Rubens Vaz obrigaram o governo a instaurar um Inquérito Policial Militar para investigar o atentado. Uma série de investigações levou à prisão dos autores do crime, que confessaram o envolvimento do chefe da guarda pessoal de Vargas, Gregório Fortunato, e do irmão do presidente, Benjamim Vargas. Com a conclusão do IPM, instaurado pelo Brigadeiro Nero Moura, o presidente do Inquérito, Coronel João Adil de Oliveira, informou em audiência com o presidente Vargas, que havia a existência de indícios sólidos sobre a participação de membros da Guarda no atentado. Dezenove dias depois, com o agravamento da crise política e o ultimato das Forças Armadas pela sua renúncia, Getúlio Vargas suicidou-se em 24 de agosto. O suicídio alvorotou a opinião pública e provocou uma imensa onda de revolta. Isso obrigou Lacerda e parte de seus aliados a deixar o país. Na época, milhares de revoltosos tomaram as ruas, empastelando jornais ligados à oposição.

IV. A tensão com JK e Jango e o Golpe de Lott
No entanto, pouco mais de um mês depois do suicídio, Lacerda derrotou um Vargas. Não Getúlio, é claro, mas Lutero, seu filho e presumido herdeiro político. Na eleição de 3 de outubro, foi o deputado federal mais votado no Distrito Federal com uma diferença de quase 40 mil votos sobre o segundo colocado, Lutero Vargas. Na Câmara dos Deputados tornou-se logo porta-voz da UDN contra a posse de Juscelino Kubitschek na presidência da República.

Lacerda participou de uma tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek em 1955, quando uniu-se aos militares e à direita udenista. Na época, era possível eleger um presidente sem a maioria dos votos, falha esta que a oposição pretendia remediar com uma emenda constitucional, que não foi aprovada. A fama de “demolidor de presidentes” se firmaria em novembro de 1955. Como escreveu em editorial da primeira página da Tribuna, no dia 9, “esses homens não podem tomar posse; não devem tomar posse; não tomarão posse”.

As manobras políticas começaram já no período eleitoral, quando ocorreu o episódio da Carta Brandi, uma notícia divulgada pelos opositores no jornal de Lacerda, denunciando o envolvimento de João Goulart em um contrabando de armas da Argentina para o Brasil.

Depois de eleito Juscelino, Carlos Luz, presidente interino à época, aliado aos militares e a Carlos Lacerda, tentaram depô-lo. A bordo do Cruzador Tamandaré fizeram a resistência, mas foram alvejados a tiros pela artilharia do exército a mando do General Teixeira Lott, que também tinha pretensões de se candidatar a presidência. Foi o último tiro de guerra disparado na Baía da Guanabara no Rio de Janeiro. Durante anos o episódio ficou conhecido como o Golpe de Lott.

Lacerda partiu para um exílio breve em Cuba, que ainda era governada por Fulgêncio Batista. Voltou em outubro de 1956 para reassumir sua cadeira de deputado, e continuar a oposição a Juscelino Kubitschek, atacando, entre outras coisas, a construção de Brasília. Reeleito em 1958, defendeu a autonomia do Rio de Janeiro e a criação do estado da Guanabara.

Juscelino não permitiu jamais o acesso de Carlos Lacerda à Televisão. Para se precaver contra sua volta à cena política, Juscelino anexou uma nova cláusula aos contratos de concessão de rádio e TV, mediante a qual os concessionário seriam punidos com suspensão por 30 dias no caso de transmitir programas “insultuosos às autoridades públicas”. Segundo confissões do próprio ex-presidente, a primeira  pessoa em quem pensava ao acordar era Carlos Lacerda. Juscelino confessou a Lacerda, no encontro de Lisboa, em 1966, que se deixasse Lacerda falar na televisão, Lacerda o teria derrubado do governo.

V. Governador do Estado da Guanabara
Em 1960, o eleitorado foi às urnas para eleger não só o governador do estado, mas também o sucessor de JK na presidência da República. Jânio Quadros venceu o general Lott com uma margem mais confortável que a de Lacerda sobre seus opositores, o deputado Sérgio Magalhães (PTB-PSB) e Tenório Cavalcanti, político do município de Duque de Caxias, que conseguiu arrebanhar mais de 20% dos votos cariocas.

Vencida a eleição, o grande desafio era: como um político nacional, radical, que
desprezava a “política da conversa”, poderia articular apoios para governar, fazer
alianças com os grupos locais, construir, enfim, as bases políticas de um novo estado? Lacerda apostou na montagem de um governo “técnico”, constituído com base em critérios de impessoalidade, neutralidade e racionalidade.

Realizou um governo dinâmico, reconhecido pelo impulso que deu à educação, implantando a obrigatoriedade escolar, construindo inúmeras escolas primárias – com o apoio da Fundação Otávio Mangabeira – e criando a Universidade do Estado da Guanabara, além de inúmeras escolas técnicas e ginásios. Fez elevados investimentos em obras públicas, principalmente no que tange ao abastecimento de água, como a estação de tratamento de água do Guandu, e o tratamento de esgoto.

Seu governo destacou-se também pela construção de grandes obras que mostraram suas habilidades de administrador e consolidaram a simpatia da população. Seu Secretário de Obras foi o eminente engenheiro civil e sanitarista Enaldo Cravo Peixoto. Construiu a estação de tratamento de água do Guandu (até hoje a maior do país) e um sistema de distribuição que resolveram um centenário problema de abastecimento – como a falta de água crônica. Construiu túneis importantes para o trânsito de veículos, como o Santa Bárbara e o Rebouças, ligando a Zona Norte à Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro. Terminou a construção e reurbanização do aterro do Flamengo. Removeu favelas de bairros da zona sul e Maracanã, criando o parque da Catacumba, o campus da UEG (atual UERJ), e instalando seus antigos habitantes em conjuntos habitacionais afastados como Cidade de Deus e Vila Kennedy. Construiu inúmeras escolas e manteve um alto padrão de qualidade dos hospitais públicos. Educação, urbanização e habitação foram as áreas mais beneficiadas, e que até hoje, não por acaso, dão a Lacerda um lugar privilegiado na memória carioca.

VI. A renúncia de Jânio Quadros e a Revolução de 64
Em 1961, discursou pela televisão atacando o então Presidente Jânio Quadros. A renúncia de Jânio ocorreu em seguida, a 25 de agosto. A fama de “demolidor de presidentes” voltou com força, ainda mais pela movimentação subseqüente para impedir a posse do vice João Goulart, o herdeiro do getulismo.

Em 1965, fundou a editora Nova Fronteira, que publicou importantes autores nacionais e estrangeiros, inclusive o dicionário Aurélio. Escreveu numerosos livros, entre eles O Caminho da Liberdade (1957), O Poder das Ideias(1963), Brasil entre a Verdade e a Mentira (1965), Paixão e Ciúme (1966),Crítica e Autocrítica (1966), A Casa do Meu Avô: pensamentos, palavras e obras (1977). Depoimento (1978) e Discursos Parlamentares (1982) foram compilados e publicados após a sua morte.

Foi um dos líderes civis da Revolução de 1964, porém voltou-se contra o Regime Militar, com a prorrogação do mandato do presidente Castelo Branco.

VII. A Traição de Castelo Branco e a perseguição política
Decidido a exorcizar o fantasma do “demolidor”, o general-presidente Castelo Branco suspendeu as eleições previstas para 1965 e obteve a prorrogação de seu mandato até março de 1967. Segundo Lacerda, a prorrogação do mandato de Castelo Branco levaria à consolidação do governo numa ditadura militar permanente no Brasil, o que realmente aconteceu. Derrotado na própria sucessão na Guanabara, quando seu candidato, Flexa Ribeiro, foi batido por larga diferença de votos por Negrão de Lima, candidato da aliança PTB-PSD, Lacerda teve que se defrontar com as mudanças institucionais impostas pelo regime militar: fim dos partidos políticos, imposição do bipartidarismo e implantação de eleições indiretas para presidente da República e governador.

A frente ampla
Movimento político lançado em 28 de outubro de 1966 com o objetivo de lutar pela “restauração do regime democrático” no Brasil, a Frente Ampla tem como principal articulador Carlos Lacerda, e contou com a participação dos ex-presidentes (e inimigos) Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Em setembro, a imprensa referia-se à formação de uma frente política — batizada de Frente Ampla — reunindo Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, e seus correligionários. As negociações de Lacerda com Juscelino, cassado em junho de 1964 e exilado em Lisboa, encaminhadas pelo deputado do MDB Renato Archer, avançavam com relativa facilidade, mas com Goulart, desenvolvidas por intermédio do emedebista Armindo Doutel de Andrade, mostravam-se mais difíceis. Cassado pelos militares logo após o golpe, Goulart vivia em Montevidéu.

Os militares da linha dura ameaçaram retirar o apoio a Lacerda, caso ele continuasse os entendimentos com os dois inimigos da Revolução de 64. A Frente Ampla foi finalmente lançada em 28 de outubro de 1966, através de um manifesto dirigido ao povo brasileiro e publicado no jornal Tribuna da Imprensa. Assinado apenas por Carlos Lacerda, o documento defendia eleições livres e diretas, a reforma partidária e institucional, a retomada do desenvolvimento econômico e a adoção de uma política externa soberana. Apesar de não ter sido firmado por Goulart e Kubitschek, o manifesto confirmava as negociações entre eles e Lacerda.

Em 19 de novembro de 1966, Lacerda e Kubitschek emitiram a Declaração de Lisboa, na qual afirmavam terem superado as divergências e estarem dispostos a trabalhar juntos numa frente ampla de oposição ao regime militar. Formalizada a aliança Lacerda-Juscelino, impunha-se a obtenção de um compromisso de Goulart. Lacerda admitia que o movimento não ganharia amplitude sem a inclusão da componente popular representada pelos partidários do ex-presidente e pelos sindicatos.

Em maio de 1967, em discurso na Câmara dos Deputados, Renato Archer declarou que a Frente Ampla entraria em recesso por 90 dias, na expectativa de uma melhor definição do recém-instalado governo do marechal Costa e Silva. No período que se seguiu, diluíram-se os apoios da bancada do MDB. No final de agosto, reiterando o agravamento das relações da Frente com o governo, o ministro da Justiça, Gama e Silva, proibiu a presença de Lacerda na televisão. Foi nessa conjuntura de tensão que Archer foi designado secretário-geral da Frente Ampla.

Os contatos com Goulart, mantidos através do deputado Osvaldo Lima Filho e de José Gomes Talarico, evoluíam. No final de setembro, mais de dez meses depois da Declaração de Lisboa, Lacerda firmou em Montevidéu uma nota conjunta com Goulart, na qual a Frente Ampla era caracterizada como um “instrumento capaz de atender… ao anseio popular pela restauração das liberdades públicas e individuais”.

Depois da entrada de Goulart, e graças também à maior aceitação por parte dos parlamentares do MDB, deu-se início a mobilizações públicas, com comícios nas cidades paulistas de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, em dezembro de 1967, e em Londrina e Maringá, no Paraná, no início de abril de 1968. Esses últimos eventos, reunindo mais de 15 mil pessoas, coincidiram com as manifestações estudantis realizadas em todo o país em repúdio à violência policial que, no Rio de Janeiro, causara a morte do estudante Edson Luís de Lima Souto no final de março.

No dia 5 de abril, por intermédio da Portaria nº 117 do Ministério da Justiça, todas as atividades da Frente Ampla foram proibidas e Carlos Lacerda foi cassado pelo Regime Militar.

V. A morte e o reconhecimento
Morreu na madrugada 21 de maio de 1977, em uma clínica particular após ter contraído uma gripe comum. Em 20 de maio de 1987, através do decreto federal nº 94.353, teve restabelecidas, post mortem, as condecorações nacionais que foram retiradas e reincluído nas ordens do mérito das quais fora excluído em 1968.

Por:https://direitasja.com.br/biografias/l/carlos-lacerda/

O Brasil de JK > A construção de Brasília

A construção de Brasília

Israel Pinheiro (1º da esq.), Lúcio Costa (2º), Oscar Niemeyer (3º) e Juscelino Kubitschek (4º) examinam maquete da Praça dos Três Poderes.Em 19 de setembro de 1956 foi sancionada a Lei no 2.874, que criou a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). Para presidi-la foi nomeado Israel Pinheiro, engenheiro formado na Escola de Minas de Ouro Preto, político mineiro, filho do ex-presidente de Minas João Pinheiro e amigo de JK. Segundo Otto Lara Resende, Brasília foi produto de uma conjugação de quatro loucuras: a de Juscelino, a de Israel Pinheiro, a de Oscar Niemeyer e a de Lúcio Costa. Israel Pinheiro foi figura fundamental na construção da nova capital, mas não se deve esquecer o papel de Bernardo Saião e Ernesto Silva, também diretores da Novacap e destemidos tocadores de obras, como gostava JK.

O edital do concurso para a escolha do projeto urbanístico de Brasília foi marcado para março de 1957. O arquiteto e urbanista Affonso Eduardo Reidy, por exemplo, discordou dos termos do edital e não participou do concurso. Concorreram 26 projetos, dos quais 16 foram eliminados na seleção prévia. Entre os que ficaram estavam o de Lúcio Costa, o de Nei Rocha e Silva, e de Henrique Mindlin, o de Paulo Camargo, o de MMM Roberto e o da firma Construtec.

O projeto aprovado, de autoria de Lúcio Costa, dividiu a opinião dos arquitetos. Para uns, não passava de um esboço, um rabisco, e sua inscrição não deveria ter sido sequer aceita. Para outros, era simplesmente brilhante, genial. O representante do Instituto de Arquitetos do Brasil, por exemplo, abandonou o júri por divergir do resultado, já que a proposta de Lúcio Costa era apenas um rascunho. Os concorrentes derrotados não se conformaram e criaram uma polêmica que repercutiu na imprensa da época

Juscelino Kubitschek no Hotel Brasília. 8 dez. 1956Brasília foi construída em três anos – pelo menos seus principais prédios foram concluídos nesse prazo. Em 1958, o palácio da Alvorada tinha sua fachada mostrada na revista Manchete. JK sabia que, se a sede do governo não estivesse pronta na data prevista para sua inauguração, o projeto seria abandonado.

Instalado no Catetinho (referência ao palácio do Catete, sede do governo federal no Rio de Janeiro), JK comandava a realização do sonho dos urbanistas e arquitetos modernos, que, imbuídos da idéia de planejamento, definiam os espaços para moradia, trabalho e lazer. Pretendiam todos liquidar o passado e realizar um ideal de igualitarismo promovido pelo Estado.

Construção do prédio do Congresso Nacional. Brasília, 1958À medida que a cidade ia sendo erguida, já se cuidava da construção de sua memória. O governo publicou 11 livros – a Coleção Brasília – que constituem a mais importante fonte documental para a história dos antecedentes da nova capital. Publicou também a Revista Brasília, que circulou entre janeiro de 1957 e abril de 1960, e acompanhou o dia-a-dia da construção.

Desde sua inauguração, em 21 de abril de 1960, Brasília vem sendo estudada e monitorada por geógrafos, urbanistas, arquitetos, sociólogos. Há estudos sobre a primeira geração de moradores, sobre as falhas da cidade que não permitiram o convívio social dos habitantes, sobre as traições ao plano original. Brasília já foi chamada de “cidade sem gente”, “cidade sem esquina”, “cidade de burocratas”, “ilha da fantasia”…

Lúcio Costa declarava à revista Manchete em 1974: “Digam o que quiserem, Brasília é um milagre. Quando lá fui pela primeira vez, aquilo tudo Juscelino Kubitschek e Lúcio Costa examinam planta.era deserto a perder de vista. Havia apenas uma trilha vermelha e reta descendo do alto do cruzeiro até o Alvorada, que começava a aflorar das fundações, perdido na distância. Apenas o cerrado, o céu imenso, e uma idéia saída da minha cabeça O céu continua, mas a idéia brotou do chão como por encanto e a cidade agora se espraia e adensa.”

Em 1988, dizia o urbanista a O Estado de S. Paulo: “O que ocorre em Brasília e fere nossa sensibilidade é essa coisa sem remédio, porque é o próprio Brasil. É a coexistência, lado a lado, da arquitetura e da antiarquitetura, que se alastra; da inteligência e da antiinteligência, que não pára; é o apuro parede-meia com a vulgaridade, o desenvolvimento atolado no subdesenvolvimento; são as facilidades e o relativo bem-estar de uma parte, e as dificuldades e o crônico mal estar da parte maior. Se em Brasília esse contraste avulta é porque o primeiro élan visou além – algo maior. Brasília é, portanto, uma síntese do Brasil, com seus aspectos positivos e negativos, mas é também testemunho de nossa força viva latente. Do ponto de vista do tesoureiro, do ministro da Fazenda, a construção da cidade pode ter sido mesmo insensatez, mas do ponto de vista do estadista, foi um gesto de lúcida coragem e confiança no Brasil definitivo.”

Lúcia Lippi Oliveira

“Saio da vida para entrar na história”, analise da carta escrita por Getulio antes de sua morte

“Não se trata apenas de mais uma simplescarta, mas sim de um relato curto e extremamente patriarcal de Getúlio ao povo brasileiro, e diretamente direcionado as supostas forças contrárias ao seu governo.
 Getúlio governou a nação brasileira em duas situações completamente distintas. A primeira aconteceu após um golpe (1930), e a segunda após a ocorrência de eleições diretas.
 Nesta carta testamento redigida momentos antes de sua morte, Getúlio faz um breve relato de todo o período que esteve à frente do povo Brasileiro. Sendo que os quatro últimos podem ser considerados os mais exaustivos de todo o período.
getulio É nesses últimos anos que seu governo se torna mais nacionalista, enfrentando assim o capital internacional aliado a UDN (União Democrática Nacional), do lado de Getúlio se concentrava a massa trabalhadora e cidadãos de origem mais simples da sociedade. Mas a oposição contava com um tipo de aliado muito forte na época os jornais oposicionistas que criticavam ferozmente o governo. Influenciados por tais jornais os trabalhadores já começam a ensaiar greves contrárias ao governo.
 A saída adotada por Getúlio, foi conceder aumento de 100% no salário mínimo nacional, aumentando assim a indignação dos empresários e da classe média brasileira. Oportunidade ideal para os jornais oposicionistas aliados a classe média atacarem mais ainda o governo.
 Uma figura política que merece total atenção nesse período é Carlos Lacerda, principal nome da oposição e dono do Jornal Tribuna da Imprensa, e um fato considerado crucial para o aumento de sua oposição e das forças militares ao governo de Getúlio, se deu quando um dos correligionários do presidente achou que eliminando Lacerda, acabaria com os problemas enfrentados pelo governo, agindo por impulso contratou um pistoleiro para matá-lo, mas o plano deu errado e Lacerda acabou levemente ferido no pé, mas um de seus acompanhantes o major da Aeronáutica Rubem Vaz acabou assassinado.
 Tal acontecimento gerou um efeito dominó em que os militares tomaram a dor de tal ato e aumentaram o cerco ao governo, e aliados a UDN de Lacerda passaram a exigir a renuncia de Vargas do governo.
 Sem agüentar tanta pressão e não concordando com sua renuncia, Getúlio comete suicídio com um tiro no coração. O tiro atingiu literalmente o coração do povo Brasileiro e a oposição, pois foi como um tiro no seu próprio pé.
 A morte do “pai dos pobres” gerou tamanha comoção nacional, que o povo reagindo a morte do grande líder, tratou de atacar à sedes de empresas estrangeiras, sedes de jornais oposicionistas, e até a embaixada do governo Norte Americano.
 Resultado do ato de Getúlio, foi que mesmo morto ele reverteu sua situação política, pois meses depois Juscelino Kubitschek aliado político de Getúlio vence as eleições presidenciais, e a UDN mais uma vez sai derrotada. E Getúlio de homem comum vira um mito, saindo dessa vida e entrando para a história do povo brasileiro.”
Carta lida disponível em:  https://www.youtube.com/watch?v=XV7ZA6tkzoA 

Vargas na telinha

O filme “Getúlio”, lançado em maio de 2014 narra o fim do ex-presidente e os fatos que o encaminharam até a morte.

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Os últimos dias de Getúlio mostram momentos de importância no país, e de como se desenvolve a política nesse período. É um filme histórico criado a pouco tempo, sobre Vargas que marcou foi e controverso. Um presidente que governou em uma ditadura e foi eleito para governar em uma democracia. O filme mostra também um pouco da vida privada de Getúlio.

Segundo o historiador Jorge Ferreira, professor da UFF e especialista em trabalhismo, Vargas modernizou o país, mesmo sendo autoritário por um de seu governo. Quando falou do que foi o getulismo, Jorge Ferreira contou que os direitos concedidos aos trabalhadores, entre 1931 e 1934, foram tendências seguidas da Europa por Vargas. Jorge Ferreira também fala que o grupo unido a Vargas tinha o objetivo de um Estado totalitário e modernizador, que pretendia mudar a economia. Em 1934 a industrialização do país é efetuada com grandes empresas estatais abertas.

Ferreira citou também o crescimento de 7% do país no segundo mandato de Getúlio, mesmo com as diversas dificuldades enfrentadas com essa segunda fase de seu governo.

A crise política seguida de um atentado que matou o major Rubens Vaz fez a oposição fortalecer. O objetivo da oposição era humilhar Vargas e destruir a ideia de mito que ele tinha conquistado.Com o suicídio de Vargas os papeis de inverteram e Getúlio entrou para a História do país.

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99 anos da Revolução Russa

O dia 7 de novembro marca o aniversário da Revolução de Outubro, ocorrida na Rússia em 1917. Os acontecimentos ocorridos na época consolidaram o Partido Bolchevique no poder, iniciando o processo que culminou na formação da União Soviética em 1922.

Por que exatamente o evento se chama Revolução de Outubro, se faz aniversário em novembro? O estranho descasamento entre nome e data tem seu motivo. À época, a Rússia era um dos poucos países europeus a ainda utilizar o calendário juliano, sistema de contagem de datas implantado em 46 a.C. por Júlio César (daí o nome) e que antecedeu o calendário gregoriano, adotado na maior parte do Ocidente em 1582 e nos anos seguintes. Devido a falhas na contagem dos anos bissextos, o calendário juliano acumula uma diferença de 13 dias em relação a seu sucessor: desse modo, a data que a maior parte da Europa conheceu como “7 de novembro de 1917” foi, na Rússia, o dia 25 de outubro de 1917.

A história da Revolução começou oito meses antes, com a derrubada do regime do czar Nicolau II (Revolução de Fevereiro). A abdicação do soberano foi seguida pela formação de um Governo Provisório, constituído principalmente por nobres e aristocratas, e de vários conselhos de trabalhadores (sovietes), formado por “deputados” ligados a partidos de esquerda (bolcheviques, mencheviques e socialistas-revolucionários). O principal soviete foi instalado na capital do país, Petrogrado.

Embora o Governo Provisório ocupasse nominalmente o poder, grande parte de sua atividade se reportava à aprovação dos sovietes – instituições em tese informais, mas que na prática influenciavam decisivamente setores fundamentais da população russa, como os trabalhadores industriais e o exército. Esse regime, no qual o poder concreto foi repartido entre Governo Provisório e sovietes, se chamou “poder dual” – “dvoevlastie”, em russo. Esse sistema imperou na Rússia de março/1917 até a Revolução de Outubro, capitaneada pelo Partido Bolchevique – grupo de esquerda que detinha influência decisiva sobre os sovietes. Nesse processo, foi decisiva a figura do líder do partido, um tal Vladimir Ilyich Ulyanov. Não reconheceu o nome? Talvez seja ligeiramente mais familiar o apelido que Vladimir adotou em 1901, e que lhe acompanhou até o fim da sua vida: Lênin.

No início de 1917, Lênin (embora a origem seja incerta, acredita-se que o apelido tenha sua origem no Rio Lena, que atravessa a Sibéria) vivia no exílio em Zurique, tendo ouvido falar da derrubada do czar por intermédio de um amigo. Ele já era uma figura de destaque no Partido Bolchevique, autor de diversas obras a respeito do papel do Estado e da revolução socialista. Seu potencial como líder revolucionário atraiu a atenção do governo alemão, interessado em desestabilizar a Rússia com o objetivo de obter a vitória no front oriental da Primeira Guerra Mundial. A Alemanha, assim, ofereceu a Lênin diversas garantias diplomáticas e financeiras para seu retorno a Petrogrado.

Lênin não frustrou as expectativas: assim que pôs os pés em solo russo, começou a trabalhar incessantemente para a derrubada do Governo Provisório e a passagem de “todo o poder aos sovietes”. Esse evento ocorreria em outubro (ou novembro, como preferir), quando um golpe militar levado a cabo pelos bolcheviques, juntamente com uma série de manobras eleitorais dentro do sistema dos sovietes, garantiu ao partido a assunção do poder na Rússia.

Apesar de ter causado consequências históricas profundas, a Revolução de Outubro não foi um evento de grandes dimensões: a propaganda soviética as aumentaria consideravelmente nos anos posteriores. Seu momento-chave, ocorrido no dia 7 de novembro de 1917, foi a tomada do Palácio de Inverno de Petrogrado (sede do Governo Provisório) pelas tropas vermelhas. Embora a propaganda oficial (principalmente o filme Outubro, lançado em 1927 por Sergei Eisenstein) a retrate como um acontecimento de grande porte, na realidade o Palácio era parcamente defendido. Poucas tropas foram necessárias, e quase nenhum tiro precisou ser disparado na ocasião.

Deixemos o resto da história ser contado visualmente – para isso, separamos 18 imagens que retratam momentos essenciais desse processo que mudou decisivamente toda a história do planeta nos anos posteriores.

1. Lênin

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Além de principal líder do Partido Bolchevique, Lênin foi o intelectual que articulou todo o processo de tomada do poder pelos comunistas em 1917. Na foto, tirada em algum momento incerto anterior à Revolução, ele aparece discursando em Petrogrado para um grupo de correligionários. A figura em destaque à direita do balcão é Leon Trotsky – um de seus potenciais sucessores, que acabaria sendo suplantado por Stalin, enviado para o exílio e posteriormente assassinado.

2. O exército

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O exército russo foi um dos principais alvos da propaganda dos partidos de esquerda nos anos que antecederam à Revolução – como mostra essa foto, em que soldados simpáticos aos bolcheviques carregam faixas com slogans marxistas. O meio militar foi um terreno extremamente fértil para a propagação de ideais revolucionários, uma vez que o discurso de “exploração” encontrava grande aceitação entre soldados que não se conformavam com a luta na Primeira Guerra Mundial, travada em condições precárias e contra um inimigo mais forte. Após a Revolução, Lênin pretendia substituir a máquina estatal existente por outra inteiramente nova (veja o capítulo “Socialismo e Estado” deste artigo), processo que incluiria o exército. A realidade, porém, se mostraria mais forte do que as teorias de Lênin: estima-se que mais de 80% dos oficiais que lutaram a Guerra Civil ao lado dos bolcheviques pertencessem às antigas forças czaristas.

3. “Dias de julho”

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Parte do processo que desembocaria na Revolução de Outubro, os “dias de julho” foram inicialmente manifestações espontâneas de militares em Petrogrado, estimulados por uma recente derrota sofrida contra a Alemanha. A intelligentsia bolchevique aproveitou-se desse movimento, tomando sua liderança e introduzindo nas manifestações as palavras de ordem “vsia vlast’ sovietam” (“todo o poder aos sovietes”), como pode ser observado na faixa na fotografia acima. A manifestação foi contida e o Governo Provisório ordenou a prisão de vários líderes bolcheviques – entre os quais Lênin, que fugiu para a Finlândia, retornando à Rússia em seguida.

4. Soviete de Petrogrado

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Basicamente, os sovietes eram conselhos de trabalhadores – na verdade, deputados escolhidos aleatoriamente nas fábricas e quarteis – que se propunham a deliberar sobre questões relativas à política russa. As fotos retratam o principal deles, o Soviete de Petrogrado, formado na capital do país e que em 15 dias de existência reuniu mais de 3 mil membros.

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O número enorme de deputados tornava as sessões caóticas. Por esse motivo, não tardou até que as decisões do Soviete passassem a ser tomadas inicialmente por seu comitê executivo, conhecido como Ispolkom, e posteriormente levadas à aclamação dos participantes. Os sovietes eram integrados por membros ligados a três partidos de esquerda (bolcheviques, mencheviques e socialistas-revolucionários), os quais divergiam seriamente quanto a diversos temas. A primeira foto é um exemplo – na faixa do canto superior esquerdo, lê-se “Fora Lênin!”.

5. Tomada do Palácio de Inverno

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A primeira foto mostra as tropas da Guarda Vermelha se preparando para o assalto ao Palácio de Inverno, em Petrogrado – sede do antigo governo czarista e do Governo Provisório que lhe sucedeu.

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Na segunda foto, um desfile de tropas leais aos bolcheviques é realizado na frente da construção, após sua tomada – operação que é considerada o marco inicial da Revolução de Outubro e do governo comunista.

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A terceira foto, embora seja comumente divulgada como um registro histórico do evento, trata-se na verdade de uma reencenação – a invasão do palácio ocorreu à noite, e não havia câmeras por perto.

6. Novo governo

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Proclamação do Milrevcom de Petrogrado na qual é anunciada a derrubada do Governo Provisório. Os Milrevcom (Comitês Militares Revolucionários) foram órgãos militares criados pelo Partido Bolchevique para conduzir a tomada do governo russo. Mais de 40 comitês foram criados e distribuídos ao longo de todo o território russo.

7. Nova capital

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Lênin, alguns comandantes militares e o exército marcham na Praça Vermelha, em Moscou. Moscou foi tomada pelos bolcheviques em 15 de novembro de 1915, e sua captura passou por combates mais violentos do que os ocorridos em Petrogrado – alguns historiadores russos os consideram como as primeiras batalhas da Guerra Civil. Posteriormente, a cidade se tornaria a capital do país. A transferência ocorreu em março de 1918, temendo-se agitações em Petrogrado (cidade que depois foi renomeada como Leningrado, e hoje é conhecida como São Petersburgo).

8. Fim do czarismo

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Na primeira foto, retratos do czar e da família imperial são removidos das paredes em Petrogrado. Após sua abdicação em fevereiro de 1917, Nicolau II e sua família foram aprisionados – primeiro na Tsarskoye Sielo (“aldeia do czar”), uma mansão imperial nos subúrbios de Petrogrado, depois na Dom Kuklina (“casa de Kuklin”), residência localizada em Tobolsk.

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Finalmente, foram transferidos para a Dom Ipat’ieva (“casa de Ipatiev”), localizada em Yekaterinburg, no centro do país, onde foi tirada a segunda foto. Temendo que a antiga família imperial pudesse ser libertada e provocar agitações contra o novo regime, os bolcheviques executaram o czar, sua esposa, seus cinco filhos e toda sua comitiva em maio de 1918. Os corpos seriam descobertos apenas em 1979.

9. Pravda

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Fundado em 1912, o Pravda (“verdade”, em russo) era o jornal do Partido Bolchevique. Inicialmente perseguido pelo czarismo (o jornal chegou a mudar de nome oito vezes entre 1914 e 1917), o Pravda voltou a seu nome original em 1917 e, após a Revolução, tornou-se a publicação oficial do novo regime, status que manteria até 1991. O jornal foi fechado por Boris Yeltsin em 1991, mas logo após uma publicação de mesmo nome foi criada por um grupo de jornalistas russos. O novo Pravda foi então adquirido por empresários gregos e, em 1997, voltou às mãos do Partido Comunista Russo. Se você quiser adicionar mais um veículo de comunicação de nome russo à sua leitura diária, saiba que há inclusive uma versão em português do jornal, que pode ser acessada aqui.

10. Eleição para a Assembleia Constituinte

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A intenção declarada do Governo Provisório proclamado em fevereiro/1917 era organizar eleições para uma Assembleia Constituinte, que deveria determinar os rumos do país após o fim do czarismo. Mesmo com o golpe bolchevique, as eleições de fato chegaram a ser realizadas – o que ocorreu em 25 de novembro, com a vitória do Partido Socialista Revolucionário (41% dos votos). Os bolcheviques ficaram em segundo lugar, com 23,5% dos votos. A Assembleia se reuniria uma única vez, em 18/19 de janeiro de 1918: temendo a derrota de suas propostas, os bolcheviques fecharam-na à força.

11. Guerra Civil

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Travada entre 1918 e 1922, a Guerra Civil Russa opôs os bolcheviques (“vermelhos”) a diversas forças de oposição, geralmente agrupadas sob o nome de “exércitos brancos”. O estudo do conflito é extremamente complexo: não bastassem os fatos de o exército vermelho ser um grupo em formação e de não haver coesão entre os diferentes fronts nos quais os “brancos” lutavam, a história da Guerra Civil ainda envolve a invasão germânica no final da Primeira Guerra Mundial, a existência de grupos não alinhados com nenhum dos dois lados (guerrilheiros rurais “verdes” e anarquistas “negros”), intervenções de países estrangeiros, contratações de mercenários e a atuação de movimentos separatistas (a qual resultaria na independência de nações como a Polônia e os países bálticos). Na foto, soldados pertencentes aos “vermelhos” – grupo vitorioso ao final do conflito – marcham em Kharkov, localizada na atual Ucrânia.

12. Escassez

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O comunismo, quem diria, não obteve os resultados prometidos: logo após a tomada do poder pelos bolcheviques, a economia russa entrou em colapso, com a falta de produtos básicos e uma inflação exorbitante (motivada principalmente pelo desejo dos comunistas em se acabar com o dinheiro, que em sua visão seria um instrumento para a exploração do proletariado). Inicialmente as falhas foram atribuídas à Guerra Civil, e criou-se a expressão “comunismo de guerra” para se designar a política econômica dos primeiros anos após a Revolução. Em 1921, Lênin substituiria o “comunismo de guerra” pela Novaya Ekonomicheskaya Politika (Nova Política Econômica), que basicamente era o que hoje chamamos de “capitalismo de Estado”. Na NEP, revogada por Stalin em 1928, era permitida a propriedade privada de alguns negócios, enquanto o crédito, o comércio exterior e as grandes indústrias eram controladas pelo Estado. Soa familiar?

Post feito originalmente por: História da Revolução Russa em 16 imagens

A paranoia anticomunista com 80 anos de atraso

Por Fernando do Valle × 24/11/2015 às 14:58

Quando certa paranoia anticomunista ainda provoca delírios, alguns até cômicos, com certeza esses reacionários de hoje teriam uma síncope se vivessem há 80 anos, quando duas importantes capitais (Recife e Natal) e a capital do país à época (Rio de Janeiro) foram o cenário da Revolta Comunista que tentou derrubar Getúlio Vargas em novembro de 1935.

Muitos conhecem a revolta como “intentona comunista”, apelido depreciativo dado ao governo ao levante, basta dar um pulo ao dicionário que encontramos intentona como um “intento louco, um plano insensato”. A prepotência dos aliados de Getúlio, que apelidaram com desprezo o movimento, talvez se deva à rapidez com que venceram os revoltosos: cerca de uma semana.

Quem liderou a revolta foi a Aliança Nacional Libertadora (ANL), fundada poucos meses antes, em maio de 1935. No comando da ANL estavam os comunistas, mas ela reunia democratas, liberais, antiimperialistas, anti-latifundiários e socialistas que se opunham ao avanço do nazi-fascismo. A Aliança chegou a reunir 70 mil filiados, entre eles, militares descontentes com os rumos do governo Vargas que participaram da Revolução de 30. Os militares alinhados ao governo acusavam a ANL de receber “ouro de Moscou” e defendiam seu banimento do cenário político.

Com o lema “Pão, Terra e Liberdade”, a ANL tinha entre suas principais bandeiras a urgência de uma ampla reforma agrária. Foi um jovem militante comunista, Carlos Lacerda, quem leu o manifesto de Luís Carlos Prestes que pedia “todo o poder a ANL” que consagrou o Cavaleiro da Esperança como presidente de honra da Aliança. Mais tarde, Lacerda tornou-se um empedernido conservador e ferrenho opositor de João Goulart e Juscelino Kubitschek.

revolta comunista 1935

O Partido Comunista foi fundado no Brasil em março de 1922, cinco anos após a Revolução Russa de outubro de 1917. Com apenas quatro meses de existência, foi colocado na clandestinidade pelo estado de sítio do presidente Arthur Bernardes. Entre 1924 e 1925, a Coluna liderada por Luís Carlos Prestes lutou contra o governo central.

Os planos do levante comunista no Brasil começaram a tomar corpo em Moscou entre o final de 1934 e o início de 1935. Em abril de 1935, Prestes retorna da capital russa e passa a contar com a ajuda de comunistas infiltrados no Brasil como o ex-deputado comunista alemão Artur Ewert, o argentino Rodolfo Ghioldi, além de outros, para articular a revolta. Os planos de Prestes incluíam a tomada do poder e a instalação de um governo popular que prepararia a implantação de um regime socialista no país.

“As lutas continuam, porque a vitória ainda não foi alcançada e o lutador heroico é incapaz de ficar a meio do caminho, porque o objetivo a atingir é a libertação nacional do Brasil, a sua unificação nacional e o seu progresso e o bem-estar e a liberdade de seu povo e o lutador persistente e heroico é esse mesmo povo, que do Amazonas ao Rio Grande do Sul, que do litoral às fronteiras da Bolívia, está unificado mais pelo sofrimento, pela miséria e pela humilhação em que vegeta do que uma unidade nacional impossível nas condições semicoloniais e semifeudal de hoje!” (trecho do manifesto de Luís Carlos Prestes).

O 21º Batalhão de Caçadores na cidade de Natal abrigou o primeiro levante militar no dia 23 de novembro de 1935. Após 19 horas de confrontos que vitimaram 100 pessoas, os rebelados tomam o controle da cidade e formam o Comitê Popular Revolucionário, com integrantes do Comitê do Partido Comunista. Durante 4 dias, Natal viveu a revolução, mas a reação das tropas do governo massacrou os rebeldes, oficiais foram presos e soldados e militares de baixa patente foram torturados.

intentona comunista 1935

Com a insurreição em Natal, o secretariado do Partido Comunista do Recife marcou o levante para o dia 24. O levante na Vila Militar enfrentou dura resistência, mas os rebeldes dominaram o quartel e conseguiram marchar em Recife. O governo mobilizou mais tropas e a rebelião também foi debelada na capital pernambucana.

Mesmo com a revolta sufocada no Nordeste, o levante aconteceu na capital do país no dia 27 de novembro no 3º Regimento de Infantaria, da Praia Vermelha, e na Escola de Aviação Militar do Campo dos Afonsos. No momento do levante no Rio, o governo já havia recolhido informações sobre os planos dos revolucionários, o que facilitou a reação das tropas fiéis a Getúlio.

Sem contar com a adesão do operariado e da classe média, a rebelião foi violentamente derrotada. A partir daí, uma forte repressão se abateu não só contra os comunistas, mas contra todos os opositores do governo. Milhares de pessoas foram presas em todo o país, inclusive deputados e senadores.

revolta comunista 1935

Para justificar os arbítrios cometidos, o governo ainda inventou que militares getulistas foram assassinados enquanto dormiam nos quartéis da capital fluminense. Participantes do levante foram torturados e membros do partido comunista que não participaram da revolta também foram presos.

Getúlio Vargas aproveitou a histeria anticomunista para prender milhares de opositores, a grande maioria deles não havia participado do movimento revolucionário e mal sabiam o que tinha acontecido. Vargas usou o levante para concentrar ainda mais poderes em suas mãos: militares poderiam ser cassados, garantias democráticas da Constituição foram suspensas e a censura sobre a imprensa aumentou.

intentona comunista 1935

Prestes só foi preso em março de 1936 ao lado de Olga Benário e libertado 9 anos depois, em 1945, quando recebe anistia de Getúlio Vargas. Sua companheira, Olga Benário, agente comunista alemã, grávida de Prestes, foi deportada pra seu país de origem, em 1942. Depois de dar a luz à filha, Anita Leocádia, em uma prisão da Gestapo (polícia secreta alemã), Olga foi morta em um campo de concentração com 34 anos de idade.

Em 2002, o documentário “O Assalto ao Poder”, de Eduardo Escorel, nos dá mais detalhes sobre a Revolta Comunista de 1935:

O ASSALTO AO PODER

Em 2013, A TV Brasil entrevistou um dos participantes da revolta, Antero de Almeida, com 107 anos:

CONHEÇA O ÚNICO SOBREVIVENTE DA REVOLTA COMUNISTA – REPÓRTER BRASIL

 

Publicado em:  http://zonacurva.com.br/

 

Quando certa paranoia anticomunista ainda provoca delírios, alguns até cômicos, com certeza esses reacionários de hoje teriam uma síncope se vivessem há 80 anos, quando duas importantes capitais (Recife e Natal) e a capital do país à época (Rio de Janeiro) foram o cenário da Revolta Comunista que tentou derrubar Getúlio Vargas em novembro de 1935.

Muitos conhecem a revolta como “intentona comunista”, apelido depreciativo dado ao governo ao levante, basta dar um pulo ao dicionário que encontramos intentona como um “intento louco, um plano insensato”. A prepotência dos aliados de Getúlio, que apelidaram com desprezo o movimento, talvez se deva à rapidez com que venceram os revoltosos: cerca de uma semana.

Quem liderou a revolta foi a Aliança Nacional Libertadora (ANL), fundada poucos meses antes, em maio de 1935. No comando da ANL estavam os comunistas, mas ela reunia democratas, liberais, antiimperialistas, anti-latifundiários e socialistas que se opunham ao avanço do nazi-fascismo. A Aliança chegou a reunir 70 mil filiados, entre eles, militares descontentes com os rumos do governo Vargas que participaram da Revolução de 30. Os militares alinhados ao governo acusavam a ANL de receber “ouro de Moscou” e defendiam seu banimento do cenário político.

Com o lema “Pão, Terra e Liberdade”, a ANL tinha entre suas principais bandeiras a urgência de uma ampla reforma agrária. Foi um jovem militante comunista, Carlos Lacerda, quem leu o manifesto de Luís Carlos Prestes que pedia “todo o poder a ANL” que consagrou o Cavaleiro da Esperança como presidente de honra da Aliança. Mais tarde, Lacerda tornou-se um empedernido conservador e ferrenho opositor de João Goulart e Juscelino Kubitschek.

revolta comunista 1935

O Partido Comunista foi fundado no Brasil em março de 1922, cinco anos após a Revolução Russa de outubro de 1917. Com apenas quatro meses de existência, foi colocado na clandestinidade pelo estado de sítio do presidente Arthur Bernardes. Entre 1924 e 1925, a Coluna liderada por Luís Carlos Prestes lutou contra o governo central.

Os planos do levante comunista no Brasil começaram a tomar corpo em Moscou entre o final de 1934 e o início de 1935. Em abril de 1935, Prestes retorna da capital russa e passa a contar com a ajuda de comunistas infiltrados no Brasil como o ex-deputado comunista alemão Artur Ewert, o argentino Rodolfo Ghioldi, além de outros, para articular a revolta. Os planos de Prestes incluíam a tomada do poder e a instalação de um governo popular que prepararia a implantação de um regime socialista no país.

“As lutas continuam, porque a vitória ainda não foi alcançada e o lutador heroico é incapaz de ficar a meio do caminho, porque o objetivo a atingir é a libertação nacional do Brasil, a sua unificação nacional e o seu progresso e o bem-estar e a liberdade de seu povo e o lutador persistente e heroico é esse mesmo povo, que do Amazonas ao Rio Grande do Sul, que do litoral às fronteiras da Bolívia, está unificado mais pelo sofrimento, pela miséria e pela humilhação em que vegeta do que uma unidade nacional impossível nas condições semicoloniais e semifeudal de hoje!” (trecho do manifesto de Luís Carlos Prestes).

O 21º Batalhão de Caçadores na cidade de Natal abrigou o primeiro levante militar no dia 23 de novembro de 1935. Após 19 horas de confrontos que vitimaram 100 pessoas, os rebelados tomam o controle da cidade e formam o Comitê Popular Revolucionário, com integrantes do Comitê do Partido Comunista. Durante 4 dias, Natal viveu a revolução, mas a reação das tropas do governo massacrou os rebeldes, oficiais foram presos e soldados e militares de baixa patente foram torturados.

intentona comunista 1935

Com a insurreição em Natal, o secretariado do Partido Comunista do Recife marcou o levante para o dia 24. O levante na Vila Militar enfrentou dura resistência, mas os rebeldes dominaram o quartel e conseguiram marchar em Recife. O governo mobilizou mais tropas e a rebelião também foi debelada na capital pernambucana.

Mesmo com a revolta sufocada no Nordeste, o levante aconteceu na capital do país no dia 27 de novembro no 3º Regimento de Infantaria, da Praia Vermelha, e na Escola de Aviação Militar do Campo dos Afonsos. No momento do levante no Rio, o governo já havia recolhido informações sobre os planos dos revolucionários, o que facilitou a reação das tropas fiéis a Getúlio.

Sem contar com a adesão do operariado e da classe média, a rebelião foi violentamente derrotada. A partir daí, uma forte repressão se abateu não só contra os comunistas, mas contra todos os opositores do governo. Milhares de pessoas foram presas em todo o país, inclusive deputados e senadores.

revolta comunista 1935

Para justificar os arbítrios cometidos, o governo ainda inventou que militares getulistas foram assassinados enquanto dormiam nos quartéis da capital fluminense. Participantes do levante foram torturados e membros do partido comunista que não participaram da revolta também foram presos.

Getúlio Vargas aproveitou a histeria anticomunista para prender milhares de opositores, a grande maioria deles não havia participado do movimento revolucionário e mal sabiam o que tinha acontecido. Vargas usou o levante para concentrar ainda mais poderes em suas mãos: militares poderiam ser cassados, garantias democráticas da Constituição foram suspensas e a censura sobre a imprensa aumentou.

intentona comunista 1935

Prestes só foi preso em março de 1936 ao lado de Olga Benário e libertado 9 anos depois, em 1945, quando recebe anistia de Getúlio Vargas. Sua companheira, Olga Benário, agente comunista alemã, grávida de Prestes, foi deportada pra seu país de origem, em 1942. Depois de dar a luz à filha, Anita Leocádia, em uma prisão da Gestapo (polícia secreta alemã), Olga foi morta em um campo de concentração com 34 anos de idade.

Em 2002, o documentário “O Assalto ao Poder”, de Eduardo Escorel, nos dá mais detalhes sobre a Revolta Comunista de 1935:

Em 2013, A TV Brasil entrevistou um dos participantes da revolta, Antero de Almeida, com 107 anos:

 

 

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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